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“Aquela região é uma terra sem Lei, quem manda lá são esses criminosos, não existe a presença efetiva do estado!”

_POR DAVID BATISTA

As imagens são de total destruição. Fumaça, fogo, devastação em meio ao verde da floresta amazônica. Assim foram retratadas as fotos feitas pelos fotojornalistas Edmar Barros e Sandro Pereira, durante os dez dias em que percorreu os municípios de Humaitá (a 217 km de Manaus) e Lábrea (a 852 km da capital). O Governo do Amazonas afirma que está trabalhando para conter o avanço das queimadas. Não foi a realidade encontrada pelos fotógrafos, que contestam a informação e a registraram em imagens.

Os jornalistas percorreram cerca de 2.400 km, pelas BR-319 e 230, entre os municípios localizados no sul do Amazonas. A região é conhecida pela grande quantidade de queimadas, que aumentam na época do verão amazônida. Era justamente a pauta que eles precisavam.

Sem muita dificuldade, mas correndo risco de vida, foram feitos os primeiros cliques. Seguindo os rastros de fumaça, entre estradas, ramais e em meio à vegetação, logo começou a produção dos trabalhos. Edmar fotografava para uma revista científica da Noruega e agências de notícia nacionais e internacionais. Na manchete do site internacional Regnskogfondet, o destaque: “Mais um ano dramático para a floresta tropical no Brasil”.

A matéria cita ainda que o desmatamento na Amazônia nos últimos 12 meses foi de 8.794 km2. “Esses números ainda são altíssimos e dramáticos para o nosso planeta”, comenta o secretário-geral da fundação norueguesa Rainforest Fund, Tørris Jæger.

Ameaças

Uma simbiose entre destruição e o verde da floresta Amazônica. Fotos: Edmar Barros

As fotos logo repercutiram e, aos poucos, vão ganhando espaços nos grandes veículos onde Edmar é correspondente. Na noite desta terça-feira (24/8), após a divulgação dos trabalhos em redes sociais, Edmar recebeu ameaças de morte. A repercussão incomodou fazendeiros, grileiros e madeireiros que são os principais responsáveis por cometer esses crimes na região, de acordo com dados da Polícia Federal e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

“Edmar estou lhe trazendo um recado para vc, do pessoal do 42, se vc vier meter seu rabo aqui em labrea para denunciar às derrubadas vc vai queimar junto na queimada (sic)”, dizia a mensagem enviada para o WhatsApp pessoal do fotógrafo. A mensagem continua ainda com palavras de baixo calão e finaliza dizendo que o relógio do fotógrafo está contando e que ele deve ficar atento.

Por precaução, o correspondente chegou a registrar um Boletim de Ocorrência (BO) na Delegacia Interativa. Houve dificuldades durante o registro, pois o registro do boletim foi recusado na primeira vez que foi feito. Edmar só conseguiu o BO depois que ligou para a delegacia e fez uma reclamação.

“Foram 10 dias de intensa peleja, cobrindo mais um ano de desmatamento e queimadas em municípios do sul do Amazonas. Eu e Sandro Pereira rodamos mais de 2.400 km de estradas e ramais para realizar nosso trabalho, que é sempre difícil, longe e perigoso. Nesses 2.400 KM, não encontramos nenhuma presença do Estado e da lei para fiscalizar e punir os responsáveis por esses crimes ambientais”, escreveu o fotógrafo em suas redes sociais, um dia após o retorno de sua jornada.

Em nota, o Governo do Amazonas, por meio do Sistema de Meio Ambiente do Amazonas, informou que tem trabalhado na otimização das estratégias e no melhoramento dos recursos para fortalecer as ações de combate ao desmatamento e às queimadas ilegais por meio da Operação Integrada Tamoiotatá.

Ainda de acordo com a nota, uma força-tarefa ocorre de forma contínua desde o mês de abril, e passou a contar, neste mês, com um reforço de efetivo de 312 pessoas, sendo 137 servidores do Estado e 175 brigadistas florestais, distribuídos em três bases de atuação localizadas em Apuí, Lábrea e Humaitá, lugares considerados de maior vulnerabilidade.

Edmar contesta essa informação, e afirma que, durante o período em que a dupla esteve realizando a produção das fotos, não encontrou um único brigadista, bombeiro, policial ambiental ou sequer um soldado do Exército Brasileiro, que tem base naquela região. O cenário mostra uma terra sem lei, que piora a cada ano com a impunidade que motiva a destruição criminosa da floresta.

“Por isso da ameaça! Aquela região é uma terra sem Lei, quem manda lá são esses criminosos, não existe a presença efetiva do estado!”, afirma o profissional. Mesmo diante das ameaças, Edmar escreveu em outra publicação que, se ainda estivesse no local, teria continuado seu trabalho, e que possivelmente quem o ameaçou não conhece sua história profissional.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) condenou  a tentativa de intimidação do fotojornalista e solicita que a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas e o governador Wilson Lima (PSC) garantam a devida investigação dos fatos, assim como condições seguras para o exercício da profissão no Estado. 

O caso de Edmar Barros será informado às organizações internacionais com as quais a Abraji atua para que a ameaça de morte seja monitorada pelos organismos independentes

Leia a nota na íntegra: Abraji

Contexto de degradação

A denúncia feita por Edmar não é única e está longe de ser. “Tem que divulgar mesmo, estive em Lábrea esses dias, e a cidade está numa situação precária com tantas queimadas. A cidade está totalmente poluída com tanta fumaça, você acorda de manhã e a cidade está coberta pela fumaça”, escreveu uma internauta, sem se identificar, em postagem na rede social.

Fumacê visto de longe. Foto: Edmar Barros

O Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE) apresentou recentemente dados preliminares para o desmatamento em julho, encerrando assim as medições para o ano florestal 2020-2021. Embora o período como um todo mostre uma queda parcial em relação ao ano passado, os números ainda são alarmantes.

Uma pesquisa do INPE juntamente com o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) mostra que a Amazônia passou a ser fonte de carbono devido às queimadas, ao desmatamento e às mudanças climáticas. O desmatamento em torno de 30% ou superior apresentou uma importante alteração na estação da seca (principalmente agosto, setembro e outubro de 2020), que ficou mais seca, mais quente e mais longa.

De acordo com o artigo publicado e assinado pela pesquisadora Luciana V. Gatti, isso representa um período de grande estresse para a floresta. Essas regiões apresentaram uma emissão de carbono 10 vezes maior que as regiões com desmatamento inferior a 20%.

Para o geógrafo, ambientalista e diretor da Wildlife Conservation Society (WCS), Carlos Durigan, o cenário é ainda mais preocupante, uma vez que o processo de degradação da Amazônia que envolve o desmatamento e as queimadas está em um aumento crescente nos últimos anos.

Durigan destaca que as dificuldades da gestão governamental, a falta de planejamento estratégico em relação à preservação da floresta e o próprio cenário acelerado de mudanças no clima são fatores que contribuem para o crescimento da problemática. 

“Nós vimos recentemente o MapBiomas divulgando uma análise que mostra também a perda hídrica, uma perda de pelo menos 15% de áreas que eram ocupadas por águas no Brasil, e isso reflete e influencia também no cenário negativo que estamos vivendo. Associadas a essas causas estão as mudanças no clima, fatores humanos e o aumento das atividades criminosas que estão levando a essa degradação, desmatamento e queimadas. A fragilidade do nosso sistema de manejo e gestão territorial, principalmente na Amazônia, também contribui para esse cenário difícil que estamos vivendo. O cenário é muito crítico”, explicou o ambientalista.

A pesquisa do MapBiomas indica que a dinâmica indevida do uso da terra baseada na conversão da floresta para pecuária e agricultura e a construção de represas contribui para a diminuição do fluxo hídrico.

Ambientalistas concordam entre si que, para solucionar ou amenizar o problema, é preciso que haja um esforço maior do Brasil, numa iniciativa que envolva a sociedade e o poder público na busca de resolver essa situação e reduzir as ameaças que pairam tanto sobre a região quanto sobre as pessoas que vivem nesses locais.

Fotos: Edmar Barros


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